Choveu ou pareceu chover. O ar, na lembrança, pesa como pano molhado; os livros sobre a mesa exalam um pó que assenta. Em volta, bichos noturnos riscam o escuro; uma lâmpada vacila; há rumor de trabalho minucioso. Em 1884, em Sapé, Paraíba, entre canaviais e corredores de engenho, nasce Augusto dos Anjos, que aprende cedo a escutar a madeira ceder e a enxergar na matéria um léxico.
A biografia breve favoreceu lendas, mas os versos apontam uma psicologia vigilante, centrada no sintoma e no corpo como protagonista.
Chega a hora que a leitura se fecha e a sala fica como se respirasse
baixo para não assustar nada. O que estava no papel não se recolhe: fica de vigia, com a paciência de quem conhece o peso do corpo e, ainda assim, chama pelo que resiste. “Eu” não pede reverências; pede a coragem de nomear o que apodrece sem perfume, de sustentar a ideia diante da carne, sem atalho. Não é consolo; é claridade. E essa claridade corta. O leitor sai com as mãos um pouco frias e, ao mesmo tempo, menos sozinho, porque percebe que alguém andou antes por esses corredores, com a lâmpada trêmula e os pulmões cansados, e mesmo assim deixou um rastro compassado para que os passos não se perdessem. Na página, a atenção do poeta trata o sofrimento como matéria a ser reconhecida e não escondida; e, quando a sentença termina, o silêncio que fica tem rosto. Se perguntarem o que ele é para nós, a resposta não cabe inteira numa definição: é a prova de que a língua suporta a verdade do corpo e que, diante do fim que nos ronda, ainda é possível dizer com precisão e com ternura. O livro se fecha, mas não acaba. A linguagem fica ali, em pé, guardando o que nos resta. E é por isso que dói.
baixo para não assustar nada. O que estava no papel não se recolhe: fica de vigia, com a paciência de quem conhece o peso do corpo e, ainda assim, chama pelo que resiste. “Eu” não pede reverências; pede a coragem de nomear o que apodrece sem perfume, de sustentar a ideia diante da carne, sem atalho. Não é consolo; é claridade. E essa claridade corta. O leitor sai com as mãos um pouco frias e, ao mesmo tempo, menos sozinho, porque percebe que alguém andou antes por esses corredores, com a lâmpada trêmula e os pulmões cansados, e mesmo assim deixou um rastro compassado para que os passos não se perdessem. Na página, a atenção do poeta trata o sofrimento como matéria a ser reconhecida e não escondida; e, quando a sentença termina, o silêncio que fica tem rosto. Se perguntarem o que ele é para nós, a resposta não cabe inteira numa definição: é a prova de que a língua suporta a verdade do corpo e que, diante do fim que nos ronda, ainda é possível dizer com precisão e com ternura. O livro se fecha, mas não acaba. A linguagem fica ali, em pé, guardando o que nos resta. E é por isso que dói.
Ele pagou para publicar e pagou caro com a vida: aos 30, o corpo cedeu; a obra, não; e o mito começou ali...
